16 de Outubro de 2014

Report: ensaio

o rally social

Por Diogo Galvão*

                                            

“Peguei uma muda de roupas, meu chapéu de palha, uma câmera fotográfica e fui. Fui sem saber ao certo quem iria encontrar e por onde iria passar. Eram catorze desconhecidos, das mais diversas áreas de formação, unidos pelo mesmo propósito, o de levar saúde e alegria para os Sertões. Sob o céu efervescente do Sertão que tirava nossa sobriedade, e com muita poeira que limitava nossa visão, fomos para o Rally dos Sertões 2014, fazer ações sociais e sustentáveis em cidades de baixíssimo IDH, próximas ao percurso oficial do Rally.

O S.A.S. Brasil, Saúde e Alegria nos Sertões, é a organização responsável por todo esse projeto. Foram seis meses de planejamento, um investimento total de R$ 100 mil, 1.500 pessoas impactadas por nossas ações em quatro cidades. Munidos de três jipes, uma moto e dois containers-consultórios, largamos junto com os competidores, em Goiânia. Ao todo, três mil e duzentos quilômetros rodados, entre os estados de Goiás e Minas Gerais, no período de 10 dias.

Eram três as frentes de ação: saúde, entretenimento e sustentabilidade. Tínhamos um otorrino, um dentista, um oftalmologista e um clínico geral que lideravam os atendimentos à comunidade. Uma equipe multidisciplinar contando com uma artista, um engenheiro, um arquiteto e um internacionalista (eu), entre outros, que desenvolvia diversas atividades educativas e recreativas com as crianças. Por fim, na frente de sustentabilidade, dois arquitetos e eu conversávamos com a comunidade local sobre novas formas, baratas e eficazes, para captar e armazenar a água.

Ipameri, sudeste goiano, com 20 mil habitantes, foi a primeira cidade que visitamos. Ali, pudemos ter uma ideia do que viria pela frente. Pessoas com baixíssimo acesso a atendimento médico, com peles e olhos ressecados, marcados pelo sol do sertão. Pudemos verificar que os reassentados da reforma agrária já possuíam avançado conhecimento sobre reutilização de materiais, captação e armazenamento de água, tendo nós aprendido muito com eles. E a dona Fonseca (personagens inventados, histórias reais), de sessenta e poucos anos, que, por falta de óculos, tinha grande dificuldade para enxergar as letras e assim aprender a ler em suas aulas de alfabetização.

                                                    

Percorremos a serra gaúcha, dirigimos em alta velocidade por estradas de terra, pudermos ver o céu estrelado numa escuridão privilegiada, até chegar em Bonito de Minas, norte de Minas Gerais. Uma ótima prefeitura encontramos por lá. Pessoas humildes, competentes e comprometidas em tirar a cidade da lista dos dez piores IDHs do estado. A cidade parou para nos receber. Com nossa estrutura itinerante, pudemos sentar sob esse céu estrelado para uma sessão de cinema, a primeira de muitos daquela comunidade de 5 mil habitantes.

Foi em Bonito de Minas que, mesmo trazendo felicidade às centenas de crianças, nos sentimos impotentes, impedidos, calados e surdos. Maria, uma criança de 3 anos, que ficará surda se a mãe não a levar para um tratamento no ouvido, que possui altas chances de cura e que é oferecido pelo SUS. Maria já estava para ser atendida em Brasília, porém, sua mãe teve que fugir da cidade, pois sofria ameaças do marido. Em Bonito de Minas, esse tratamento não é possível. A distância, o isolamento, será imperativo na vida de Maria.

Em uma região na qual chove mil litros de água por ano, captar e armazenar essa água é uma necessidade. A comunidade de Bonito de Minas criou mecanismos e desenvolveu tecnologias que estão dando bons resultados para essa questão, que podiam muito bem servir de exemplo para outras prefeituras, de cidades muito maiores e mais ricas.

Partimos de Bonito de Minas com vontade de ficar mais. Em Olhos D’Água, com 5 mil habitantes, sendo que a maioria vivendo na zona rural, não há cinema. Também não há rede de esgotamento sanitário. Pudemos dar um dia especial, fantástico, para a rotina da cidade, que não esperava por nós. Em parceria com a Waves for Water, instalamos um filtro na única escola da cidade, garantindo água potável para as crianças durante o período de 1 ano. Nossos olhos também encheram d’água ao contarmos para Larissa, de apenas treze anos, que ela ficará cega devido a um corte em sua córnea... brincamos, nos embriagamos no mundo fantástico de Larissa.

                                             

Por fim, Conceição do Mato Dentro foi nossa última parada, antes de voltar para a grande cidade de Belo Horizonte, onde participamos da cerimônia de premiação oficial do Rally dos Sertões. Conceição possui 15 mil habitantes, todos impactados pela mineradora existente nas bordas da cidade. Uma comunidade que, apesar de encoberta pelo pó que sobe das atividades de exploração do minério, possui muita energia, o que tornou nossa última ação ainda mais intensa e divertida.

Quatro cidades atendidas, 340 avaliações oftalmológicas, 141 consultas e prescrições de óculos, 112 consultas pediátricas, incluindo 2 pneumonias e 1 dermatose grave; 143 atendimentos com otorrino, 6 lavagens de ouvido e 1 drenagem de abcesso; 21 encaminhamentos para cirurgia. 500 kits odontológicos para ensinar a criançada a escovar os dentes e 800 doses de albendazol (lombrigueiro) dadas pelos super heróis!

Esse é o projeto Rally dos Sertões Social, tudo isso foi o que vivi como um membro do S.A.S Brasil. Triste foi voltar para São Paulo, chegar na cidade mais rica do Brasil, numa noite de domingo, fria e chuvosa, com pessoas na rua, ensopadas, afogadas, congeladas, isoladas, esquecidas.

*Diogo Galvão é coordenador de conhecimento na report