26 de Novembro de 2013

Report: ensaio

em matéria de reporte...

por Victor Netto*

Enquanto a Report Sustentabilidade prepara seu segundo estudo de materialidade (leia o primeiro aqui), aconteceu em Istanbul o lançamento do estudo Reporting Matters: improving the effectiveness of reporting, realizado pela World Business Council for Sustainable Development (WBCSD) - que também anunciou seu novo Chairman do Comitê Executivo, Paul Polman.

A publicação faz uma análise de 175 relatórios publicados por empresas filiadas à instituição, trazendo achados sobre o padrão de relato, exemplos de respostas e recomendações sobre como evoluir. Esse é o primeiro estudo internacional que tenha tamanha abrangência (20 setores e 30 países) ao tratar como as empresas têm conduzido seus processos de materialidade. No entanto, outras dimensões também são analisadas, como engajamento, governança, estratégia, desempenho, metas etc.

Antes de comentar mais sobre o estudo, podemos observar que há um movimento entre os líderes da sustentabilidade. A WBCSD tem direcionado seus esforços à sua principal bandeira, o programa Action 2020, que tenta antecipar objetivos relacionados à Visão 2050, agenda produzida por 29 empresas-membro da organização, em 2009. A iniciativa também se alinha aos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS), que deverão substituir os Objetivos do Milênio da ONU a partir de 2015. A organização também se uniu à GRI e à Global Compact para fundar uma plataforma de engajamento chamada “Arquitetos de um mundo melhor”, que busca potencializar as ações do setor privado.

Essas coalizões globais servem como base para avaliar o atual estágio das organizações na sustentabilidade e orientar possibilidades. Como a maior parte dessas instituições possuem braços locais (Pacto Global, CEBDS e Ponto Focal GRI são exemplos no país), podemos esperar ações locais também.

O estudo Reporting Matters se situa nessa avaliação do relato das empresas, tendo em vista os desafios apontados em documentos como: o novo guia de diretrizes da GRI, a G4; o modelo de relato integrado, produzido pelo IIRC; e também o lançamento do Conceptual Framework, pelo Sustainability Accounting Standards Board (SASB) - a organização está desenvolvendo orientações para inclusão de conteúdos de sustentabilidade nos documentos obrigatórios da Securities and Exchange Commission (SEC).

Este cenário tem preparado o caminho pós-2015, quando se espera que as empresas já tenham consolidado em seu modelo de negócio conceitos-chave (como materialidade e integração), para atuarem frente às agudas transformações sociais e ambientais previstas pelos estudiosos.

Raio-x dos relatórios

Entre os achados do estudo foi verificado que os relatórios possuem uma média de 98 páginas (sendo o maior deles com assustadoras 780 páginas) e não havendo muita correlação entre o uso da materialidade para relatórios mais concisos. Também é diagnosticado, embora qualquer interessado no tema pudesse prever, que apenas 12% das companhias apresentam os temas ambientais, sociais e de governança junto a seus relatórios anuais, além de outras 8% que denominam seus reportes como “relatórios integrados”. Contudo, é válido o esforço destas 20%, uma vez que ‘largam a frente’ daquelas que ainda colocam os relatórios de sustentabilidade à margem das atividades estratégicas da empresa.

Um fato relevante é que estas empresas, segundo o estudo da WBCSD, tendem a publicar seus relatórios entre 1 e 3 meses após o período do relato, enquanto o restante (que não se compromete com a sincronia das informações financeiras) tende a publicar em aproximadamente 6 meses após o fim do relato. Isso reforça o apontamento feito por Steve Waygood, Executivo de Investimento Responsável da Aviva Investors durante a Conferência da GRI deste ano, sobre a necessidade de alimentar bases de dados para trazer o pensamento integrado: “se não há informações integradas que, ao menos, estejam sincronizadas”.

É interessante conferir as diferentes dimensões que o estudo aborda. Ao analisar o relato de tendências e prospecções, por exemplo, o estudo conclui que este tipo de narrativa, em geral, é genérico e não esclarece a estratégia das companhias. Com relação às dimensões abrangência e balanceamento (entre assuntos positivos e negativos), o estudo destaca as brasileiras Fibria e Vale, respectivamente, como exemplos de bons relatos nos quesitos. Vale leitura!

*Victor Netto é consultor de sustentabilidade na report